Entrevista – Como treinar a mente por meio da meditação em benefício próprio.

Por Patwant Kaur

Photo: Camila Muradas

1 – “Não existe um ser humano que queira sentir dor. E não existe ser humano que queira sair da dor”. Esta afirmação é um paradoxo. Como a pessoa pode treinar a mente para fugir dessa identificação com o drama existencial do ego e buscar a própria força?

O ser humano tem uma característica própria no que tange o enfrentamento do desconhecido. O temor àquilo que não temos controle, e que, portanto, pode, em tese, nos subjugar e derrotar. Isto é tão fortemente arraigado em nosso cérebro, que preferimos evitar o desconhecido.

O cérebro tem um mecanismo arcaico de registro de experiências pregressas de dor e de trauma. Essas memórias se registram nas amigdalas, estruturas do tamanho de uma ervilha localizadas em cada um dos hemisférios cerebrais. Elas, associadas a outras estruturas do chamado cérebro emocional (sistema límbico), orquestram uma reação imediata de defesa quando o evento que vivemos nos ameaça.

A dor é desconfortável, adoece e deprime nosso sistema por inteiro. Não me refiro apenas à dor física. As dores existenciais, ou as dores fruto de experiências difíceis e que causam frustração persistente, são também causa de grande angustia e sofrimento para o ser humano. O pano de fundo deste tipo de sofrimento se relaciona com nossa maneira imatura de processar emoções, que produz intrigas mentais supostamente racionais, mas que lá no seu âmago, nada mais são do que desculpas e autojustificativas para nos mantermos onde estamos.

Somos sensíveis à dor, entendemos sua topografia, muitas vezes estamos conscientes da causa, mas não temos em nós o mecanismo neurológico automático que nos auxilie na superação da dor sem que haja garantia imediata de que estaremos melhor e mais confortáveis lá do que onde estamos. Parece à psique humana que, dar esse passo dentro de um território desconhecido é mais doloroso do que a própria dor que nos engolfa aqui e agora. Vivendo assim nós nos tornamos vítimas e algozes de nós mesmos.

Se por um lado sofremos muito em determinadas circunstâncias e nossa compreensão se limita a julgar a circunstância pela nossa dor, por outro lado, insistimos em permanecer onde estamos em razão de duvidarmos da segurança que poderia residir numa situação desconhecida. Essa dinâmica está presente em relacionamentos íntimos, em relacionamentos de trabalho e até mesmo em amizades. Preferimos permanecer na dor de uma situação que nos é conhecida a caminhar por trajetos que não temos controle.  Existe um provérbio indiano que explica isso muito bem: “somos como o leão que caminha livre pela campina com sua juba revoando ao vento, mas que sente saudade da jaula porque nela se sentia seguro”.

A superação de todo e qualquer sofrimento, para a maioria, pressupõe dois sentimentos: de um lado a exaustão em relação a situação dolorosa do momento, algo como “eu não aguento mais! ”. A pessoa cansou de sofrer e há um desejo imperativo de mudança. De outro lado, é importante também haver disponibilidade interna para experimentar uma condição ainda não vivida. É necessário olhar para o desconhecido da mesma maneira que olhamos para um herói: cheios de esperança e confiança!

A quantidade de energia requerida para superar a dor ou permanecer na dor é a mesma, e o que nos faz insistir na dor é nossa falsa identificação ao que traz satisfação emocional imediata e controle.

2 – O que é depressão fria e como ela acontece?

A depressão fria é uma condição psíquica que afeta a vitalidade do espírito, gera raiva e nos isola de nossa alma podendo levar inclusive ao adoecimento físico. Na depressão fria há uma separação nossa da fonte de nossa própria energia, da nossa força vital e de nossa direção interna. A depressão fria causa um profundo isolamento, ansiedade e uma perda de interesse por tudo.

Yogi Bhajan chamava este estado de “O silencio da Alma” e nos advertiu várias vezes no sentido de nos prepararmos para a transição da era de peixes para a era de aquário até o ano de 2038, na qual essa condição seria muito prevalente. Suas causas estão associadas com excesso de informação e pressão constante, estresse contínuo, e mudanças consecutivas, rápidas e fora de nosso controle. Em resumo, ela se instala quando a pressão externa é muito maior do que as reservas internas do indivíduo para lidar com a situação.

3 – A meditação tem sido cada vez mais difundida em ambientes escolares e de trabalho. Como ela pode ajudar no processo cognitivo?

A meditação é uma prática que deveria fazer parte do nosso estilo de vida, assim como comer bem, dormir bem, exercitar-se e banhar-se. Assim como uma criança não se sente estimulada a escovar seus dentes, sendo necessário, no princípio que a família e a escola insistam para que esse hábito seja criado, o mesmo se dá com a meditação. Enquanto escovar os dentes higieniza a boca, meditar limpa da mente os rejeitos do subconsciente fruto do nosso processamento emocional do mundo. Se a meditação não for ensinada e o hábito adquirido, todos acharam esta atividade estranha e difícil. Mas, da mesma maneira que nós apreciamos um ambiente bucal fresco e limpo, com a prática, ninguém resiste em permanecer com uma mente poluída de falsas identificações e intrigas.

Além do benefício de cunho propriamente psicológico, a meditação promove uma regulação e distribuição homogênea da circulação sanguínea por todo o cérebro, o que além de combater adoecimentos, prevenir perda de memória, melhora em muito a percepção, a orientação, o processamento de informação e a memória, com resultados espetaculares para a cognição. Uma criança que aprendeu a prática de meditação na Escola, a levará para sua vida e terá grandes benefícios para sua saúde física e mental.

4 – A partir de que idade as práticas meditativas são recomendadas para crianças? Como funciona o trabalho da Escola Miri Piri Brasil?

Recomendamos a meditação desde o momento em que o casal decide ter uma criança! Quando a gestação está em curso, meditar é o método mais eficaz para auxiliar na formação da identidade futura da criança. Dizemos que é na gravidez que se educa uma criança!

Na Escola Miri Piri não existe um momento específico para se meditar. Usamos da máxima “medite na pausa e faça pausa na meditação”. Esse mito que meditar significa sentar-se, cruzar as pernas numa postura, colocar as mãos numa determinada posição precisa ser descontruído.

Isso é o que fazemos na Escola. Claro que meditar assim é bom, e possibilita uma experiência profunda de meditação, mas o melhor mesmo é quando a meditação se estende deste momento de reclusão para o ambiente externo onde socializamos, tomamos decisões, discutirmos, lutamos e comunicamos nossa existência.  Na Escola Miri Piri, as crianças meditam na aula de Kundalini Yoga, mas aprendem a meditar também na aula de artes, de artes marciais, no trabalho com a ciências e as letras.

5 – O Kundalini Yoga é um trabalho difuso e pode ser usado com pessoas portadoras de necessidades especiais. Como as práticas acontecem com pessoas com limitações de natureza física?

Isso vai depender do espaço físico para essas aulas, como por exemplo ter uma cadeira ou poltrona para que a pessoa possa se assentar, e não necessariamente usar o chão. Cada caso é um caso, e o professor de Kundalini Yoga está treinado para lidar com cada situação, e garantido também está o seu acesso aos professores que o formaram, que poderão auxilia-lo no encontro da solução adequada para os casos que fugirem de sua competência.

6- A diminuição da reatividade é um dos resultados apresentados com práticas meditativas. Academias de polícia e presídios são locais onde as pessoas estão sujeitas a lidar com a violência. Existem programas para atender esses públicos aqui no Brasil?

Eu não conheço no Brasil nenhum programa de yoga e meditação formalmente instituído nas academias de polícia para melhor treinar policiais na lida com situações imprevisíveis e violentas. Na Europa e nos EUA essa prática, embora não seja comum, já vem sendo institucionalizada em alguns segmentos da segurança corporativa e policial.

Temos aqui em Belo Horizonte uma experiência de muito sucesso com o trabalho de Kundalini Yoga e meditação em casa de detenção femininas e masculinas. Para conhecer melhor os resultados deste trabalho os interessados podem entrar em contato com a ABAKY (secretaria@abaky.org.br).

Dra Gurusangat Kaur Khalsa é médica e Lead Training do Kundalini Research Institute no Brasil

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